ALÉM DO EGO
A Consciência que transcende
A expressão “consciência” incorpora significados distintos em diferentes contextos. Quase a totalidade desses contextos e significados referem-se a situações que ocorrem no plano da interação do ser humano com seus semelhantes, ou no âmbito da percepção de experiências e valores estabelecidos pela sociedade:
“dor na consciência” – culpa, arrependimento;
“estar consciente” - em estado de vigília;
“ter consciência” – estar ciente;
“ser consciente” – sabedor de suas responsabilidades.
“Consciência”, no contexto deste artigo, adquire um significado supra circunstancial e supra social. O termo passa a se referir à percepção de si próprio, ao autoconhecimento, à relação do ser consigo mesmo, embora condicione sua relação com o mundo à sua volta. A consciência não brota e nem faz parte de contextos, mas emana dos próprios indivíduos, em níveis de percepção inerentes a cada um, e modula sua relação com o meio e dele obtém aprendizado. A consciência aqui referida independe de cultura, de conhecimento, de status social, de profissão, de religião, ou do que quer que possa caracterizar a personalidade do indivíduo; ela é independente até mesmo do plano em que este individuo exista. Ela é um instrumento de percepção cujo alcance depende do quanto está “desperta”.
Essa é a consciência que evolui, que desperta, que se expande em espiral, galgando planos cada vez mais sutis no conjunto dos sete corpos que compõe a totalidade do ser.
Os Sete corpos do ser
Para discorrer sobre o progresso da consciência nessa espiral evolutiva que serpenteia os corpos ou campos do ser humano, é preciso sintonizar nosso entendimento sobre o que representam estes sete corpos.
De acordo com a maior parte das tradições esotéricas, são quatro corpos inferiores – a personalidade - e três corpos superiores – a Tríade Superior, a centelha da Fonte Criadora no ser.
Os corpos inferiores:
Corpo físico – É a sede da vida biológica e dos terminais sensoriais. É o objeto das pesquisas e dos cuidados de que se ocupam as ciências médicas e biológicas convencionais.
Corpo vital ou etéreo – É a rede receptora da energia universal da vida (prana, no hinduísmo), através dos chacras. Este corpo mantém a integridade da vida orgânica, distribuindo a energia prana, por meio de seus meridianos, através do corpo biológico. É a interface entre o corpo físico e os demais corpos do ser.
Corpo astral – é a sede de percepção das sensações, emoções, sentimentos e pensamentos associados a essa percepção. Manifesta-se através do ego, entidade indevidamente execrada por algumas tradições, mas de fundamental importância na relação do ser com o mundo exterior, e na percepção das experiências transmutadoras da consciência.
Mente concreta – É a sede da razão, do raciocínio lógico. É a base de apoio da investigação científica.
Até este ponto, os corpos descritos são amplamente conhecidos e estudados pela medicina tradicional, pela psicologia e pela neurociência. Quase a totalidade dos humanos exercem sua percepção consciente apenas a partir de estímulos aplicados sobre os quatro corpos inferiores descritos acima. No entanto, a consciência é o instrumento de percepção cognitiva que permeia todos os sete corpos do ser, do mais denso – o corpo físico – aos mais sutis – a Tríade Superior.
Todos percebem estímulos ao corpo físico; todos sentem os sintomas das modulações do corpo etéreo sobre o corpo biológico; todos têm sensações, emoções e sentimentos, e reagem a isso com pensamentos correspondentes; todos, em maior ou menor grau, têm a capacidade de racionalizar e de pensar logicamente.
No entanto, mesmo vivenciando sensorialmente e racionalmente a manifestação perceptível da atividade destes corpos, a maioria dos indivíduos não a observa pela atenção, mas apenas a percebe pelos canais dos sentidos e do pensamento, nos quais se ancora a consciência pouco desperta.
Um prazer ou uma dor é percebida pelos sentidos; um desafio é enfrentado pela razão. Mas nenhum desses estímulos é observado - de forma espontânea e natural - pela atenção. Esta se fixa na origem do estímulo, procurando repeti-lo ou evitá-lo, conforme seja agradável ou desagradável. Ou seja, a atenção está a serviço do ego - cujo lema é a busca do prazer e a fuga da dor – e não em sua observação e vigilância. Como então observar as manifestações dos corpos inferiores – do ego, e não apenas percebê-las pelos sentidos e pela razão?
O ego é um labirinto, onde vagueiam emoções e pensamentos em busca de uma relação prazerosa com o mundo exterior, porque disso depende a sobrevivência do indivíduo e da espécie. No entanto, a evolução da consciência implica transcender o ego-labirinto – sem eliminá-lo – para vislumbrá-lo de um patamar superior, de onde é possível descobrir a saída, sem a necessidade de tentativas frustradas que levam a lugar nenhum.
Observar emoções e pensamentos, a partir de fora do âmbito do próprio ego, exige a ascensão da consciência a um patamar de onde ele possa ser visto de fora, como um médico examinando um paciente. Quando essa promoção da consciência é conquistada, embora o ego continue existindo como âncora de emoções e pensamentos, agora passa a emergir um novo elemento - o observador do ego/labirinto - cuja sede se localiza logo acima, na fronteira entre os quatro corpos inferiores e a Tríade Superior.
A limitação de uma consciência refém do ego assim se expressa: “Eu sinto e penso, mas não observo meus sentimentos e pensamentos a partir de um ponto fora deles, de um ponto superior ao ego na escala hierárquica dos corpos do ser”. Claro, se conseguisse teria discernimento, controle e soberania sobre sentimentos e pensamentos; não seria refém do ego.
A Tríade Superior permanece, dramaticamente, despercebida da maior parte da humanidade - inconsciente que é - porque Ela não pode ser percebida pelos sentidos, pelo ego ou pela razão humana. Sua percepção somente pode ocorrer a partir Dela mesma ou seja, quando a consciência se ancora Nela, por evolução. A consciência humana nunca olha para patamares ainda não incorporados; ela somente consegue observar, a partir do nível em que se encontra, para os níveis já conquistados. A Tríade Superior só se ilumina para a percepção humana quando o facho da consciência a faz brilhar... pela presença.
Nossa capacidade de percepção não determina a totalidade do que pode ser percebido; Ela determina o que, da totalidade, conseguimos perceber.
Os seres humanos contêm em si a centelha do fogo sagrado do Criador. É o Uno, em sua essência, habitando o indivíduo, em sua multiplicidade de formas humanas. Portanto, no nível da Tríade Superior não existe mais diferenças individuais. Aqui somos todos iguais, refletimos a mesma Unidade, somos gotas do mesmo oceano, mesmo que nossa percepção só consiga enxergar as diferenças individualizadas nos corpos inferiores.
Para quem alcança a percepção da Tríade Superior, ser “inclusivo” não significa “aceitar” as diferenças; significa entender que não há diferenças!