Auto Construir-se
A viagem transcendente da existência
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Textos

Só não sabe onde está a Luz

quem não enxerga a própria sombra!

 

 

Olhar para o sol pode ser irreparavelmente perigoso para a saúde dos olhos. Mas, se você quer saber onde ele está não precisa olhar para ele; você pode usar um método indireto: pergunte-se onde ele não está. É o método da contradição, da exclusão ou da negação. Ao olhar para sua sombra, você sabe, intuitivamente, que o sol está exatamente em oposição a ela. A sombra – a ausência do sol, a exclusão do sol, denuncia sua posição em relação ao observador. 


Ampliar a consciência - buscar a Luz -  significa ampliar a percepção de si mesmo e do Universo. E, muitas vezes, esta percepção pode ser obtida pelo método da contradição. No processo de autoconhecimento, o véu que cobre a consciência impede saber diretamente quem realmente somos; mas, pelo método da contradição podemos ter uma boa noção de quem não somos. Será que somos nosso corpo? Será que somos nosso ego? Será que somos o papel que representamos na família ou na sociedade? Será que somos quem queremos mostrar aos outros que somos? Será que o que realmente somos - nossa verdadeira essência - pode ser alterada pelas circunstâncias da vida, por doenças, pela aquisição ou perda de status social? 

 

O despertar da consciência leva inevitavelmente à reflexão de que a razão e os sentidos humanos, limitados que são, não foram projetados para compreender a verdade última - como tenta a ciência e como fantasia a religião É preciso transcender os limites destes atributos humanos para uma abertura ao “saber que murmura” à “luz que não se aprende”, ou seja, à percepção intuitiva vinda dos planos superiores que transcendem a própria existência.

Quando nos abrimos para essa compreensão, o Universo, ou seja, o verso do Uno, pode ser naturalmente entendido como a manifestação de uma Inteligência Cósmica Universal, ou o nome que se queira atribuir ao Sem Nome, a Deus. Não um Deus distante, mas uma energia cósmica não dimensional, que, se é Uno na essência – seu estado não manifesto – é múltiplo em sua manifestação, na qual sua essência Una está presente. Como poderia o Uno, o Potencial, não estar presente na sua própria realização? Seria como dizer que o DNA do pai não está presente no filho.

Uma visão desse teor, aparentemente mística, é o resultado do salto a um nível superior de consciência, do qual, embora não se consiga enxergar a verdade suprema, consegue-se enxergar uma versão de si próprio existindo num patamar inferior. Esta versão de “si próprio” é o ego que não deixa de existir porque foi transcendido, mas, agora, pode ser observado de uma esfera de compreensão mais abrangente. Ver a si próprio num estado mais limitado, a partir de uma esfera superior, traz a convicção de que “Eu não sou meu ego, Eu sou o que enxerga o ego”.

 

O ego tem como função natural fazer prevalecer o instinto de sobrevivência - própria e da espécie - o que faz dele um grande aliado do ser humano. Ele é nossa interface com o mundo exterior, é o que permite que percebamos experiências e com elas aprendamos. Portanto ele não pode ser combatido ou anulado, como propugnam algumas filosofias e religiões

 

Num tempo remoto, em que alimento, espaço e proteção tinham que ser disputados, as lutas pela sobrevivência eram parte do cenário cotidiano das sociedades. A noção de sobrevivência tem evoluído através dos séculos, abrangendo hoje um incontável número de requisitos. Status social, poder político e econômico, valorização profissional, reconhecimento, entre outras são hoje necessidades inerentes ao conceito de sobrevivência. Além disso, a sociedade civilizada moderna herdou de sociedades ancestrais o arquétipo que condiciona sobrevivência à superação - e mesmo à eliminação - de competidores, na conquista desses requisitos.

 

Aí está a conexão entre a função original do ego e a exacerbação de sua atuação no contexto das entidades sociais contemporâneas. Além de uma vasta gama de itens que atendem às necessidades de sobrevivência, as sociedades modernas estabelecem uma hierarquia em que o patamar em que se encontra um indivíduo define seu sucesso na conquista de sobrevivência. Essa complexidade existencial imposta pela diversidade de requisitos e de níveis hierárquicos em que devam ser conquistados, impõe aos indivíduos a necessidade de uma identificação pessoal, que o diferencie de seus competidores, na busca da sobrevivência moderna. À pergunta: "quem é ele ou ela?", a resposta se compõe de um título hierárquico, (social, institucional ou familiar) e de uma área de atuação ou item de patrimônio: "É diretor de marketing da..."; É proprietária da..."; É professor titular da..."; "É a assistente do..."; "É esposa do..." O foco da atenção (consciência) é fixado exclusivamente na sobrevivência, e o indivíduo passa a se identificar apenas com seus papéis, seus redutos ou seus postos avançados no campo de batalha.

 

Quando o ego é visto a partir de um patamar superior de consciência, todas as "etiquetas" que suportam a identificação individual do ego são dissolvidas pela percepção de que "eu não sou meu ego, eu sou seu observador". Se eu não sou meu ego, também não posso ser aquilo que o identifica para a conquista de sua sobrevivência na sociedade. O ego é apenas a sombra do que eu sou, seja lá o que quer que eu seja! Olhar o próprio ego, portanto, é olhar a própria sombra. É saber que, embora a Luz se projete sobre mim a partir de um ponto que, assim como o sol eu não posso encarar, Ela expõe, no plano material, graças ao alcance de minha consciência, minha própria imagem na forma de sombra. Sem a abertura para a Luz não haveria sombra, não haveria a observação do ego e nem seu observador consciente.

Não rejeite a sombra… ela denuncia onde está a LUZ!

 

 

 


 

Roberto Guelfi
Enviado por Roberto Guelfi em 03/05/2026
Alterado em 02/07/2026
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